Vizinhos acham que o Brasil quer invadir a Venezuela

Cuidado, que a China segura o Maduro em pé!

 

publicado23/11/2018

Sem Título-6.jpg

(Charge: Amarildo)

Conversa Afiada reproduz trecho de análise de Guilherme Evelin, da Época (do Globo):

Análise: O adulto na sala é Mourão 

O presidente Michel Temer recolheu durante a última reunião da Cúpula Ibero-Americana, na Guatemala, nos dias 15 e 16 de novembro, várias manifestações de apreensão. Os chefes de governo e de Estado da América Latina estão inquietos em relação ao futuro governo de Jair Bolsonaro no Brasil. O motivo é um só: Venezuela. A aflição se deve às incertezas sobre qual será a atitude que o presidente eleito adotará a partir de 1º de janeiro para lidar com o regime autoritário do presidente Nicolás Maduro. A Venezuela é hoje um país em colapso econômico e humanitário de onde um enorme contingente de imigrantes está fugindo em direção aos países vizinhos.

A inquietação dos vizinhos aumentou com uma série de sinais, depois da eleição de Bolsonaro, de que está próxima uma inflexão tanto por parte dos Estados Unidos quanto do Brasil. Os dois principais países da região parecem prontos para endurecer com a Venezuela. Nos EUA, o governo Donald Trump passou a se referir ao regime chavista na Venezuela como integrante, junto com Cuba e Nicarágua, da “troika da tirania” e do “triângulo do terror” na América Latina.

A expressão foi usada num discurso, no começo do mês, em Miami pelo linha-duríssima John Bolton, conselheiro de segurança nacional de Trump, que se encontrará na próxima semana com Bolsonaro no Rio de Janeiro. Segundo o jornal The Washington Post , os EUA estão estudando a inclusão da Venezuela na sua lista de países que financiam o terrorismo – na qual aparecem hoje Irã, Sudão, Síria e Coreia do Norte, todos “párias internacionais” aos olhos do governo americano.

Bolton saudou as eleições de Bolsonaro e do direitista Iván Duque, na Colômbia, como “sinais positivos para o futuro da região”. Viu nos pleitos “um crescente compromisso regional com os princípios do mercado livre, aberto e transparente e governança responsável”. No encontro no Rio, ele certamente abordará a questão da Venezuela com Bolsonaro, com a expectativa de obter uma adesão do Brasil à posição americana. Com a escolha para a chefia do Itamaraty do embaixador Ernesto Araújo, autor de um ensaio que prega que o Deus de Trump pode ser a salvação do Ocidente, Bolsonaro mostrou estar disposto ao alinhamento com a constelação trumpista.

Não pode se considerar, porém, que esse jogo esteja inteiramente jogado. Araújo e o grupo “anti-globalismo” responsável pela sua indicação para o Itamaraty – no qual desponta Eduardo Bolsonaro, filho do presidente eleito – não serão os únicos a influir nos rumos da política externa do próximo governo, como apontou Matias Spektor, especialista em política externa e professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas. Há também os economistas liberais sob o comando de Paulo Guedes, que vão se ocupar da área de comércio exterior, e os militares, preocupados com as questões de segurança e outras da geopolítica. A crise da Venezuela é explosiva por envolver todos esses aspectos.

Além de compartilhar com o Brasil uma grande fronteira na Amazônia, que virou uma das principais rotas para o narcotráfico, a Venezuela é um dos palcos da expansão da presença chinesa na América Latina. A China se tornou um dos principais compradores do petróleo venezuelano e tem ajudado na sobrevivência do regime chavista. Sem a China, que também é a maior parceira comercial do Brasil, é difícil haver uma solução pacífica para o imbróglio venezuelano.

O encontro de Bolsonaro com Bolton será uma escala na viagem do conselheiro de segurança nacional dos EUA para o encontro do G-20 em Buenos Aires, na Argentina. Espera-se que a reunião marque o ápice do crescente confronto entre EUA e China pelo predomínio no cenário internacional. Vive-se uma espécie de renascimento da Guerra Fria, mas agora entre EUA e China. Cada potência está pressionando os demais países para tomar um lado nesse conflito.

Embora os trumpistas em volta de Bolsonaro certamente queiram esse alinhamento com os EUA, os militares que cercam o presidente eleito estão jogando na direção contrária. Em entrevista ao jornal Financial Times , bíblia para os investidores internacionais, o vice-presidente eleito, general Hamilton Mourão, praticamente desautorizou declarações de Bolsonaro, durante a campanha eleitoral, contra a China. Mourão disse que Bolsonaro “às vezes tem uma retórica que não combina com a realidade” e que o Brasil tratará com pragmatismo as relações com a China – dentro da tradição seguida pelo Itamaraty nos últimos anos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quinze + 16 =